Entrevista com Lilian

Eu entrevistei Lilian de Moura, e como eu suspeitava, ela tem mesmo uma parte triste em sua história. A entrevista foi bem descontraída, falamos desde campos harmônicos até flash-mobs,  da pra ler em dois minutos.

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Lilian de Moura é uma artista brasileira, nascida em São Paulo em 29/03/1966, formada em medicina e especializada em obstetrícia pela Santa Casa de São Paulo, nos conhecemos através de uma comunidade do Orkut sobre Marcel Duchamp. Lilian de Moura começou sua carreira artística recentemente, seu trabalho já chama atenção pelo vigor e o uso constante de contrastes e tensões, e é sobre isso que vamos falar em uma entrevista concedida por telefone em abril de 2011.

 

FS: De onde veio seu interesse pelas artes?

 

LDM: Acho que todo mundo tem interesse pelas artes, não importando cor, credo ou etnia. Parece meio óbvio até, mas é como se alimentar sabe? Todos tem a necessidade de suprir essa vontade estética, é natural, é inerente ao homem, sua capacidade cognitiva avançada e a potência de abstração elevadas regem as relações do homem com a natureza desde que o homem começou a dominá-la.

 

FS: Me referia ao seu interesse em trabalhar com arte.

 

LDM: Meu interesse em trabalhar com artes não “veio”, ele foi sugerido há alguns anos pela minha psicóloga.

 

FS: Já vi casos desastrosos com esse tipo de sugestão.

 

LDM: Eu sofri um acidente de carro em 1999, quando eu trazia meu filho mais novo de volta pra casa da escola, um sujeito bêbado bateu em nosso carro, a batida pegou em cheio na lateral do carro bem onde ele estava sentado. Ele morreu depois de 3 semanas de coma.

 

FS:Hum…

 

LDM: Foi um período tenebroso da minha vida. Foram meses e meses em depressão. Na verdade eu não conseguia falar sobre isso até a pouco tempo atrás.

 

FS: E imagino que arte tem a ver com isso.

 

LDM: Completamente. Eu fiquei com algumas cicatrizes no rosto e as duas pernas quebradas, mas algumas cicatrizes demoram a fechar, eu fiquei deprimida por muito tempo, meu marido teve que me levar ao hospital duas vezes para tomar soro, eu não conseguia comer. Logo eu estava frequentando psiquiatras e psicólogos, parece que quando isso acontece a gente morre um pouquinho. E nenhum deles era muito bom, talvez isso se deva por não ser uma coisa que eles tenham passado, enfim, foi quando eu passava já pelo oitavo psicólogo que as coisas começaram a mudar. Ela era recém-formada e foi decidido que iria me acompanhar durante o dia todo, meu marido já estava começando a ficar preocupado, sabe? Ele precisava trabalhar e ainda tínhamos outros dois filhos para cuidar.

 

FS: E que tipo de trabalho ela desenvolveu com você?

 

LDM: Isso que é curioso, nada que os outros não tinham tentado de início eu acho, mas eu me afeiçoei muito rápido a ela e as coisas foram seguindo muito bem conforme fomos nos encontrando.

 

FS: Algum tipo de atividade específica que ela trabalhou, você gostaria de mencionar?

 

LDM: Ela me levava a vários lugares, íamos a parques e museus, os meus primeiros contatos com a arte contemporânea datam dessa época, comecei a me interessar muito pelas pinturas abstratas. Gostava muito também dos surrealistas.

FS: Hum, mas esses últimos são da vanguarda histórica.

 

LDM: Sim, e não deixam de ser contemporâneos, um dos trabalhos que minha terapeuta fez comigo era o da Estruturação do Self.

 

FS: Uau, Lygia Clark?

 

LDM: Exato, ela fez várias seções com os Objetos Relacionais, aquilo tudo foi uma experiência muito forte, com o tempo o vigor foi voltando à minha vida. Era uma loucura esse tipo de encontro, ríamos de gargalhar e logo em seguida choro e depois riso e choro ao mesmo tempo.

 

FS: Imagino.

 

LDM: É, e logo ela me contou que aquilo foi inventado por uma artista brasileira chamada Lygia Clark. Eu fiquei maluca. É muito curioso sabe? Porque assim, a minha terapeuta é formada em psicologia, que não é uma faculdade da medicina, no entanto, eles fazem o Juramento de Hipócrates como todos os profissionais da área da saúde. E a Lygia Clark não. Mas como um artista pode fazer tanto para o processo de cura de uma pessoa?

 

FS: Isso aumenta o Ego deles…

 

LDM: Pelo contrário, a Lygia Clark faz um pacto com a modificação estrutural da personalidade.

 

FS: Isso é verdade.

 

LDM: E isso me tirou de órbita, como você, eu achava que o artista estava muito mais interessado em resolver as próprias questões do que colocar o outro em evidência.

 

FS: São raros os casos em que o artista entende que o espectador é peça mais do que fundamental para o trabalho de arte, não sendo mais um espectador, mas parte inerente do trabalho artístico. O que é uma obra sem o outro?

 

LDM: E foi aí que eu comecei a encontrar na arte uma possibilidade de reinserção no mundo.

 

FS: E nessa época que você começou a trabalhar com happening?

 

LDM: Não ainda, eu não sabia nem o que era isso. Foi mais ou menos 2 anos depois que o tratamento começou, e que eu ainda não via possibilidades de voltar para minha área, que eu pensei em começar meus estudos em artes.

 

FS: E você chegou a fazer algum curso?

 

LDM: Eu fiz um curso de desenho usando o lado direito do cérebro.

 

FS: Que coisa Hippie.

 

LDM: É legal, abriu várias outras portas, as únicas aulas de desenho que eu tive foram nas aulas de anatomia da faculdade.

 

FS: Estava brincando, eu fiz um curso desses também.

 

LDM: E eu resolvi que não queria fazer faculdade de artes, eu tinha muito tempo livre e decidi estudar por conta própria.

 

FS: E como você chegou no happening?

 

LDM: Uma coisa leva a outra, eu fiquei maravilhada com o trabalho da Lygia Clark, e fui atrás do que era aquilo que ela fazia e pra minha surpresa eu não consegui encontrar em nenhum livro que mencionava o trabalho dela, o que era aquilo?

 

FS: Ah, a grande ruptura, acho que todo estudante de arte nos dias de hoje passa por isso.

 

LDM: É. Isso é escultura? Performance? Que raios é isso? (risos)

 

FS: (risos)

 

LDM: Daí fui vendo que o trabalho dela tinha origens bem longínquas. Lá nos palcos do Cabaret Voltaire.

 

FS: Quem sabe até antes disso né?

 

LDM: Ah sim, a gente sabe que ineditismo é um parafuso a mais numa engrenagem industrial.

 

FS: No caso dos artistas pode ser até um guarda-chuva a mais.

 

LDM: (gargalhada)… É bem por aí… E no final das contas eu vi que a coisa toda era muito mais intrincada, um artista, um movimento leva a outro. E acabei me interessando pelo fato de o happening, como eu acabei simplificando tudo o que estava no escopo do meu interesse, trabalhar o corpo dessa maneira, você sabe, tanto Oiticica como a Lygia Pape, tinham trabalhos muito corporais, e o Provos então, nem se fala, e eu acabei enxergando muito mais coisa no happening do que na performance.

 

FS: Puxa, isso é bem inusitado, pra mim eram duas coisas quase que inexoráveis, como se o happening fosse uma modalidade de performance, não é?

 

LDM: Não deixa de ser, mas acho que a diferença mais importante é que o happening considera o outro de uma maneira mais ampla.

 

FS: Continue…

 

LDM: A performance é uma ação que pretende a poucos, e quase nunca sugere alguma participação do público com esse corpo, o happening é quase sempre inesperado, furtivo…

 

FS: E muitas vezes ilegal… (risos)

 

LDM: (risos)… o que é um elemento muito importante, a performance é anunciada, espera-se por ela, não tem uma conquista necessária que o happening tem, um apelo com uma população local. Têm-se uma barreira quase intransponível do sensível aí. E isso impacta no corpo do outro de uma maneira muito maior eu acho, a reverberação é a palavra-chave, são como notas harmônicas ou dissonantes em um instrumento.

 

FS: Faz muito sentido, tanto com a sua história, como o refinamento desses dois campos da arte. Pra finalizar gostaria que você falasse um pouco sobre os seus últimos trabalhos. Eu sei que eles estão ligados à área da saúde, mas nem imagino como isso é colocado através de um happening.

LDM: Meus últimos trabalhos tem sim relação com a área da saúde, especialmente a saúde pública, um deles é uma recitação coletiva do Juramento de Hipócrates nas salas de espera de hospitais da rede, fazendo um coro, não acho que esse seja um trabalho especialmente bom, mas eu pretendo ampliar ele. É muito complicado fazer esse tipo de coisa hoje…

 

FS: O que, as pessoas acham que é propaganda da VIVO?

 

LDM: (risos)… Não, não, é, na verdade, talvez por isso eles apareçam tanto no formato de flash-mob hoje em dia, mas eu acho eles um pouco bobos, é difícil fazer algo que seja contemporâneo nesse formato, o que é curioso sendo que foi uma das modalidades mais recentes dentro da história da arte.

 

FS: Muito bem observado.

 

LDM: E tenho um outro trabalho que é também em hospitais da rede pública em que eu contrato uma pessoa vestida de padre para benzer as pessoas doentes.

 

FS: Nossa, que pesado.

 

LDM: Pois é, mas ninguém achou ruim, sabe? Tanto nesse como no outro, a aceitação é quase sempre muito boa. As pessoas compartilham um descontentamento muito grande quanto aos serviços dos hospitais. Os outros trabalhos eu quero guardar para o DVD que eu estou lançando.

 

FS: Então o meu muito obrigado pela entrevista e espero que você tenha muito sucesso na sua nova carreira.

 

 

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